Gaia (Adoa Coelho)

Gaia é a personificação do antigo poder matriarcal das antigas culturas Indo-Européias. É a Grande Mãe que dá e tira, que nutre e depois devora os próprios filhos após sua morte. É a força elementar que dá sustento e possibilita a ordem do mundo. Nos mitos gregos, os conflitos entre Gaia e as divindades masculinas representam a ascensão do poder patriarcal e da sociedade grega sobre os povos pré-existentes.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O Cálice da Vingança - Parte 5/7

- Cof, cof, cof... cof, cof! - Tossiu. Tossiu, recuperou e esperou por uma reacção. Olhou-se de cima a baixo. Nada. – Hum. - Endireitou a coluna vertebral, colocou os ombros para trás, peito para a frente, levantou o queixo. Depois de esconder o cálice, viu-se ao espelho. Voltou a calçar os sapatos e saiu para a rua. Braguinha seguiu até à câmara da cidade onde trabalhava. Subiu as escadas que levavam aos fachada e portão principais. As pessoas haviam-no contemplado já durante o caminho, notara-o. Desviava os olhos para baixo mal reparava no mirar directo das pessoas. Será que haviam descoberto os planos? Parou e voltou para trás. Não queria ser apanhado e preso diante dos colegas parlamentares. Seria uma vergonha enorme e inultrapassável. Pegou num jornal, para tentar descobrir alguma coisa. Deu uma moeda ao ardina e perguntou-lhe, como que desinteressadamente – Há novidades? 

- Nenhuma, meu senhor. – Respondeu-lhe o homem com um sorriso. – Quer dizer, o costume da cidade. – Pensou mais um pouco e – Houve um assassinato. Sua senhoria conhecia-o! 

- Sim? – Fez-se despercebido. Afinal, fora ele próprio quem gritara por auxílio e assistira a polícia ao indicar o caminho do assassino.

- Era aquele Pirata que sua senhoria acompanhava muitas vezes...

- EU acompanhava-o? – Braguinha bufou desconcertado, carregando propositadamente no “eu”. 

O ardina encolheu-se, não se atrevia a responder a um político. Sabia lá o que lhe poderia acontecer. Ainda perdia o seu lugar na praça...  ou, sabia lá!


Apesar desta pequena contrariedade, Braguinha sentia-se confiante como nunca. Ah! A cidade tinha outro cheiro. Outras cores. Mais luz. Onde estava o lixo que sempre via em todo o lado? As entranhas de peixe e os esgotos ao ar livre que o repugnavam? Bizarro. Continuavam ali, bem por baixo do seu nariz logo ao sair de casa, mas já não o incomodaram como antes. Teria ficado sem olfacto? Lançou o nariz para o ar. Sentia o cheiro a maresia da qual gostava, a cidade situava-se perto do Oceano, e no entanto... Observava a estrumeira acumulada na feira pelos comerciantes madrugadores e agora não lhe dizia nada. Não lhe revoltava o estômago. Era-lhe quase invisível. Como podia ser? Sendo assim, nem precisaria mais de voltar a beber para aguentar a fetidez. – ‘Co a breca! – Pensava. Estaria torpe? Como, se se achava lúcido? Concentrado? Seria? O mundo decadente em que vivera nos últimos anos estava modificado. Ou era ele quem se modificara? Estranho, muito estranho...

Resolveu-se a entrar finalmente, após vistoriar o jornal e observar os olhos indiscretos que o miravam. Enfrentou-os desta vez. Faziam-lhe vénias à medida que avançava nos corredores ao que ele respondia com semi-vénias e ar desconfiado. Nunca foram tão simpáticos com ele. Aliás, nunca tinham propriamente reparado nele. Sempre se havia sentido como um fantasma a deambular por ali. Até quando caminhava ao lado do Pirata Gagueiro, tinha a impressão de ser e parecer um simples secretário - alguém sem importância, alguém em quem ninguém reparava. Irritado, agarrou na seguinte pessoa que o cumprimentou pela gola do casaco e encostou-a à parede, a poucos centímetros acima do chão, o suficiente para a pessoa ficar em bicos de pés, que ele também não era nenhum valentão. 

- Porque estás a olhar tanto para mim? Nunca me viste, foi?

Imediatamente meia dúzia de políticos se aproximaram. Geralmente davam-se diplomaticamente bem, pelo menos sempre que possível. De vez em quando era o “deus me acuda” e o “salve-se quem puder” em plena assembleia. 

- Perdoe-me sua excelência, mas... mas a sua elegância e distinção são admiráveis. – Gaguejou o homem.

- O quê? Estás a gozar com a minha cara?

- Não! Garanto! Pergunte a quem desejar – o homem apontou a plateia que comentava baixo, entre si. 

- É verdade. – Aproximou-se um homem de abundantes cabelos brancos. – Todos nós estamos admirados pela nobreza de sua excelência. – Concordou fazendo uma vénia.

Braguinha foi obrigado a largar o homem. Todos pareciam concordar entre si, acenando com a cabeça. - Só pode ser acção do cálice! – Pensou e riu de satisfeito. - Afinal funciona!

- Claro, meus excelentíssimos colegas! Afinal nem é como se nos víssemos pela primeira vez... – Disse Braguinha para aliviar a tensão que criara ao agarrar o pobre colega.

Todos ficaram calados. Alguém o vira anteriormente? Se sim, ninguém pareceu recordar-se.

- Gostaria de nos acompanhar, caro...

- Braguinha, sua senhoria...

- ...caro Braguinha?

O político, que sabia muito bem com quem falava acedeu prontamente. O homem grisalho era líder de partido na região. Braguinha não podia deixar escapar a oportunidade de se infiltrar no grupo mais influente daquelas bandas. - Que dia estranho! Seria coincidência ter aparecido este homem precisamente hoje? – Perguntava-se.

Concentrado no trabalho, Chaves, um homem baixo e enxuto, atendia a última cliente do dia quando Cara de Cepo entrou dizendo – Boas noites.

- Boa noite, sua excelência! A quem devo a honra? – Os vidros de todas as cores e feitios alegravam as paredes pontuadas por caleidocópios excêntricos. 

Cepo apontou para uma delas. – Costuma fazer peças dessas por encomenda?

- Depende do cliente... e de quanto está disposto a pagar... sim. – Confirmou o vidreiro, aproveitando para verificar se mais alguém entrava, fechando atrás de si a porta da rua. Estranhou ver um pirata na sua loja. Não era, de todo, o estilo de cliente a quem fornecia trabalhos. – Está interessado em alguma peça em particular? – Agitado, um nervoso miudinho começara a aflorar-lhe a pele. O pirata rodopiava incessantemente pela exposição de obras. 

- Digamos que numa muito em particular. Uma muito especial.

Chaves sentiu-se amolado. – Lamento, mas peças especiais só mesmo por recomendação de amigos e com garantias. – Desculpou-se decidido a terminar por ali a possível transacção comercial. Tentou mesmo indicar o caminho para a porta da rua dirigindo-se para a dita, embora sem sucesso.

Cepo, que subitamente parou de remoinhar pela loja, enfrentou o homem, falou também com determinação na voz: - Creio que sua excelência é amigo do comerciante ali da esquina, do... como se chamava ele?
- Chamava? – O homem desviou-se ligeiramente para trás.

- Sim, chamava. Parece que teve um pequeno acidente há poucos minutos.

- U.. Um a...a... acidente? – Chaves acentuava agora os passos que dava para trás. Não lhe havia parecido boa ideia a entrada do pirata pela loja dentro e avaliava possíveis formas de defesa. Estava em perigo, sabia-o.

- É, são coisas que acontecem quando se tem de puxar pela memória e ela não coopera... 

- É? 

O artesão suava, coisa rara para um homem habituado a temperatura elevadas. Cara de Cepo sorria friamente.

- Você como artesão e criador, também deve fazer cópias por encomenda, não?

- Cópias? Eu sou um homem muito sério! Todas as minhas peças são originais! – Tentava defender a sua honra.

- Ah! Quer enganar a quem? Será que temos de fazer exercícios de memória como com o seu amiguinho? – O negrume da alma de Cepo transparecia, como se a sua pele fosse mais translúcida que os cristais que o rodeavam. 

- Não, não, não! – O homem gaguejava, transpirava, gotejava palavras e pensamentos. Desmoronava-se. 

O pirata, cuidadosamente passava com a espada embainhada demasiado perto dos cristais, deixando um rasto de estilhaços com todas as vogais do abecedário e fazendo soar a melodia mais que uma vez. Cada badalar fazia o artesão pular acima do chão, acima do que alguma vez havia saltado na vida. Estava a chegar à porta do seu atelier. Os ajudantes estavam todos recolhidos às camas no andar de cima do prédio. Eram todos crianças. Não o poderiam valer de muito. O artesão aceitava crianças como aprendizes. Rendiam bastante, não fosse o facto de a partir de certas horas da noite começarem a dar prejuízo. A concentração baixava e os acidentes aconteciam. Chaves aprendera a mandá-los fazer as tarefas caseiras quando o dia se transformava em noite. Estava sozinho. Lançou uma mão por trás das costas à maçaneta da porta. Teria de ser rápido. Deteve a respiração e arriscou-se.


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domingo, 16 de janeiro de 2011

Canção só para ti

"Em memória de Romy Schneider, minha eterna diva!"

Nunca cheguei a dizer-te
Adeus
Good-bye
Hasta siempre!

Nunca cheguei a calar
os meus gritos
porque nunca me ouviste
nem escutaste
a latitude dos meus idiomas.

Nunca cheguei a dizer-te:
Vivi.

Só tu. Mesmo sem
ti
deixaste mais só
a canção.
Sem dizer-te nada de mim.

Afinal, nunca cheguei a cantar
a falar
para ti.

C. C.
in "Desesperadamente"

Também eu a ti nunca cheguei a dizer "até logo" (nunca gostei da palavra "adeus", soa muito a permanente).
Sei que onde estás, deves ter sido recebido por ela, a tua diva.
Deves estar a deliciar-te, mas sabes? Nós, os que ficamos ainda por cá... estamos tristes por teres partido.

Até logo meu querido.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Cálice da Vingança - Parte 4/7


Braguinha temia que algo acontecesse, que alguém tentasse roubar o cálice. Ele sabia que não era o único a cobiçar o malfadado objecto. Via-o no olhar de todos quantos se acercavam do Pirata. Via-o como se nele próprio encontrasse a verdade daqueles homens. Via-se. Por isso sabia que devia ser astuto e rápido. Criou um plano. Insatisfeito e receoso, criou outro plano. E para não ser surpreendido por algum imprevisto, ainda se assegurou, atestou, certificou, confirmou com ameaças aqueles que comprou, para cumprirem o seu trabalho. O silêncio dos seus actos guardou-o para si. Nem com a jovem com quem trocava privadamente suspiros ardorosos e palavras engatadoras e indaganços fisiológicos, desabafou.


A primeira parte do plano foi relativamente fácil de conseguir. A confiança, se bem que limitada que o Pirata Gagueiro tinha com ele, proporcionara oportunidades que a mais ninguém se apresentara. O simples acesso aos aposentos do pirata político fora crucial. Aproveitando um descuido, Braguinha aproveitara a oportunidade para conseguir uma impressão do cálice num pedaço de barro que o artesão, encarregue de fazer a cópia, lhe dera.


O artesão fora, algumas poucas vezes, companheiro de aventuras nocturnas dos dois amigos. Tudo com o intuito de observar bem a peça para que não houvesse erros de maior, pelo menos visualmente. Feita a cópia, teriam de actuar o mais rápido possível. Depois de trocar os cálices, seria uma questão de tempo até que a troca fosse notada. A noite do assassinato fora por coincidência, também a noite da permuta. A ideia do homicídio não fora dele, não daquela forma... a arma que iria usar dar-lhe-ia contornos mais civilizados. Queria encenar um roubo. O verdadeiro furto havia acontecido ainda em casa do pirata. As ruas escuras dariam a cobertura necessária ao suposto ladrão-assassino e o cálice agora extraviado, o falso, serviria de engodo para desviar as atenções para si próprio. Aquele personagem saído das sombras, fora um bónus. Fez o serviço e nem precisaria de lhe pagar. Ah! Tudo corria bem! Muito bem!


Cara de Cepo chegara a outro impasse. Sentia-se perdido, exactamente como logo a seguir a terem-lhe roubado a jóia. Pensava e repensava em quem teria a peça e na realidade, podia ser qualquer pessoa. Talvez alguém chegado ao Gagueiro o tivesse feito. Talvez aquele político que estava persistentemente com ele? Provavelmente ele saberia de alguma coisa, mas como perguntar por assunto tão distinto sem levantar suspeitas sobre si? Decidiu pesquisar por duas vias – o político que estava com o pirata na altura do assassinato e o vendedor a quem havia comprado o cálice. Ele ainda se perguntava que havia naquele cálice que o fazia tão especial. Quem o teria feito. E que artes usara? Cepo mantinha uma ligação ao objecto que lhe era difícil explicar. Tão-pouco tentara comentar com vivalma. 

O pirata tinha uma vida bastante ocupada pelo bar, restando-lhe pouquíssimo tempo para confraternizar fora do local de trabalho. Aliás, nem precisava, já confraternizava lá o suficiente. Dava graças por ter um bar onde todos os clientes eram piratas. Ninguém mais se atrevia a colocar ali os pés, excepto alguma mulher obstinada por levar mais umas moedas para alimentar a prole ou divertimento remunerado. Era sabido que esta clientela gostava era mesmo de beber e pândega, e não tinha muita propensão a desabafos vindos do mais profundo da alma. Nem os piratas tinham alma. Vendiam-na à primeira oportunidade quase sem regatear preço.

Com essas primeiras moedas pagavam a entrada no mundo da pirataria. Porque nem sempre era vocação familiar, por vezes necessitavam comprar um lugar num corsário, mesmo que fosse para lavar o convés. Certas mães tentavam por tudo que os filhos seguissem outros caminhos na vida, mas o mar enfeitiçava-os. Fugir das saias da mãe também. A promessa de aventura, tesouros e mulheres em cada porto, apelava aos jovens que, à falta de melhor perigo, enveredavam pela fantasia e promessa de governar os mares salgados, solitários e amargos – coisa que só muito mais tarde compreendiam. Assim aprendiam o mundo e se tornavam tão duros como a vida que levavam. Porém amavam tanto essa vida, que se o mar lhes faltasse, secavam-se-lhes as veias e tremiam, qual bêbedo à espera da primeira rodada após o descanso forçado do sono ressacado.

Cepo ganhara uma nova vontade de viver ao descobrir sobre quem, por direito, se vingar. Achava estranho agora que de novo havia perdido o paradeiro do copo, essa mesma vontade se reafirmar. Nunca fora tão viciado por algo como pelo cálice. Nem mesmo pelo mar que chegara a percorrer em tempos desaparecidos da memória com a ajuda do álcool. Descobrira que a melhor maneira de curar um vício, seria substituí-lo por outro. Desta vez, desejava banquetear-se nessa dependência, nessa lama. Há qualquer coisa intrínseca no ser humano que o chama para o cataclismo ainda que saiba racionalmente que é má, muito má ideia - o desejo do abismo consegue então, ser o ar que o alimenta.

Braguinha fez-se muito caseiro por uns dias. Queria experimentar o cálice no sossego da refeição caseira que conseguira que a rapariga lhe preparasse. Não devia ser visto em posse do objecto furtado. A forca não estava dentro dos planos para si traçados. Não! Queria bem o contrário. Um alto cargo no governo seria satisfatório para já. Não ficaria por aí, mas sabia que toda a ascenção é feita no decorrer do tempo. Teria de ser paciente ou então... fazer um outro plano, desta vez com outros propósitos – Será que o poder do cálice chega para me fazer presidente? – Estava disposto a fazer com que a resposta fosse positiva. Olhava o copo e a sede de poder tornava-se insuportável. Chamava-o. Às vezes quase duvidava quem na verdade havia feito os planos. Às vezes, aquando sentado ao lado do pirata enquanto ele usava o cálice, sentira-se fora de si, levado por pensamentos que nunca ousara antes. Simplesmente por olhá-lo, tinha provocado efeito em si e cedera-lhe. Perguntava-se se aquele objecto estava realmente enfeitiçado. Ah... mas que prazer deixar-se enfeitiçar por ele... O cálice ainda apenas entrara na vida do homem e já o apagava em desejos para além do copo em si. Estava na hora de o apreciar.


Era um momento solene. A respiração fugia-lhe. As mãos tremiam-lhe mas agarravam firmes, o cálice. Estava arrebatado. Tentava controlar-se. A cabeça viajava à velocidade do futuro mais longínquo. Já se via presidente, a falar para o povo que o ouvia submisso. Sacudia-a, a cabeça. – Mantém-te atinado. Ainda falta muito para lá chegares... – Destapou finalmente o cálice e arregalou os olhos. O que beberia? Pousou o cálice na mesa após o observar com cuidado. Sentiu-se perdido no quarto. O que iria beber? Bom, o que tinha, excepto água. A água enjoava-o, como se o ajudasse a re-saborear o hálito constante da boca meio imunda. Encontrou uma garrafa entre os papéis, livros e lixo da sala. Antes de entornar o conteúdo da garrafa, cheirou o cálice. Meteu o nariz lá dentro. Fechou os olhos. Deleitou-se. Hum... Se antes de o utilizar já estava em êxtase, depois de beber... – O que será me que vai acontecer? – Perguntava-se inseguro. – Não me vai matar pois não? – Hum... – Já chegaste até aqui, não vais ficar pelo meio, pois não? – Quando se sentia inseguro, tinha por costume falar para si na terceira pessoa acabando por chegar a consenso, mais tarde ou mais cedo. Precisava de se convencer. Estreou o cálice com o suco alcoólico, fez o líquido percorrer as suas paredes cristalinas. Saboreava cada micro-segundo. Sabia que a sua vida estava prestes a mudar. Sabia-o. Levou a taça à boca como quem reza, primeiro elevando-a, depois, levando-a aos lábios secos, ávidos daquele néctar desconhecido.


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domingo, 2 de janeiro de 2011

O Cálice da Vingança - Parte 3/7

O sucesso e a pequena fortuna acumulados em poucos anos de cidade, chamaram a atenção para a sua pessoa. Os homens apontavam as mulheres, mas eram eles que mais cuscavam, ali e arredores. Sendo-lhes favorável, não tinham pudor algum em iniciar rumores ou intrigas. No fundo, eram mais parecidos com os piratas do que gostavam de pensar. Só que os piratas éram-no abertamente. 

E os rumores diziam que o Pirata Gagueiro usava qualquer coisa, magia negra. Sabiam que ele apenas bebia daquele cálice estranho. Não deixava ninguém aproximar-se dele e se lhe perguntavam, agia com estranheza. Tornava-se esquivo e agressivo. Era sabido que ele tinha as suas manias. Apesar de se vestir segundo a moda na cidade, continuava a usar aquele chapéu de pirata – Um pirata sem o seu chapéu, é apenas meio pirata! – Berrava. Digamos que tinha umas arestas a limar... Mas a curiosidade de quem anseia pelo poder, não tem limites e a corrupção entre os homens do pirata político era gritante. Todos tentavam saber os truques mais ocultos, Gagueiro não se descosia nem para os dele. 

Vários políticos davam-se com o pirata e Braguinha era um deles. Homem de maneiras aprendidas e ambicioso, com tal identificava-se com Gagueiro. Elegante, a cara desenhava o contorno do instrumento musical que lhe dava o nome. Eram colegas de algumas aventuras menos políticas e menos morais. Um com o outro aprendiam, cada qual a especialidade do amigo. Braguinha requeria sempre o companheiro para seu padrinho de desafios. Aprenderam a defender-se um ao outro e a retirar daí todas as vantagens. Faziam quase tudo juntos, excepto as actividades mais íntimas de qualquer casal, porque ambos eram muito machos. E divertiam-se muito sempre que percorriam os bares na noite. Bebiam e comiam interminavelmente. O pirata, já sabido das lides de beber, deixava o amigo tomar-lhe a dianteira para lhe puxar pelos segredos que, já sem defesa, desbobinava alegremente. Só depois relaxava, o pirata Gagueiro, e bebia finalmente do seu adorado cálice.

O cálice... continuava a sua estratégia. Este apercebeu-se da contínua aproximação do Braguinha e estava resolvido a finalmente dar mais passos no seu plano.
Cara de Cepo chegara à cidade. Procurou pelos bares onde encontrar aquele que, segundo os pensamentos afluentes na sua árdega mente desde que vira o maldito cartaz, se tornou o seu inimigo. mortal. Sentava-se nos cantos mais escuros de cada bar e sondava. Tornara-se bastante insidioso. Totalmente vestido de negro, ninguém o reconhecia à primeira vista. Foi assim que logrou encontrar o político pirata. Alguém avistara-o naquele bar e Cara de Cepo correu ao seu encontro. Entrou e esperou que ele e o colega saíssem. Não tardou muito.

A ronda da noite ainda ía a meio. Cantavam os dois embriagados. Cepo saltava de sombra em sombra. Desde o momento em que chegaria à cidade, não tocaria numa gota de rum – prometeu-se. Mas sentia-lhe a falta. Tragava um pequeno gole, o suficiente para aguentar mais um pouco. Mas esses espaços de tempo entre goles tornavam-no mais ansioso e bebia o próximo gole com maior avidez que o anterior. Bebia o rum conforme a sede de raiva e acabava por deitar tudo a perder. Não conseguia terminar o plano. Ou porque havia muita gente nas ruas ou porque se descuidava e caía para a luz tornando-se visível a todas as almas. Outra noite em que o Cálice lhe fugia das mãos. – Amanhã, não escapas! – Tecia, faz algumas noites já.


Mas planos, todos fazem e Braguinha, que nada tinha de inocente apesar de fraco bebedor, também fazia os seus. A noite seguinte foi de borga como hábito. Igualmente beberam juntos para acompanhar a bebida. Braguinha, que tinha por mau costume comer e falar com a boca cheia, salpicava Gagueiro com pedaços meio mastigados, salivados, do seu porco assado. Gagueiro fazia o que podia para se esquivar. O truque, aprendera-o Braguinha nas noites anteriores. Apenas quando o pirata estava sóbrio, é que se desviava dos perdigotos. Não lhe fora fácil, mas forjara as últimas bebedeiras. Entre gargalhadas e piadas e apalpanços às moçoilas que lhes traziam as bebidas, conseguia verter para o chão e para as pessoas ao seu redor grande parte do que deveria consumir com o subir das taças no ar e o tchim tchim típico de quem tem muito a celebrar, outra parte ensopava nas roupas ao deixar a bebida escorrer pelo canto da boca. Ao fim da noite tão-pouco importava o quão molhado estava, a mistura do rum com o suor estagnava o ar, mas parece que os alcoolizados a dada altura, perdem a agudeza de alguns dos seus sentidos...

Alheio a estes planos, Cepo fazia mais uma tentativa de recuperar o que fora anteriormente seu. A perseguição voltara às ruas. Desta vez não podia beber, não, não podia. Tinha de se concentrar. Tudo corria bem. Até as sombras pareciam ajudar de grandes que estavam. Olhou para as lamparinas dos postes, estavam muitas delas apagadas. Havia um par de ruas que se encontravam parcialmente às escuras. Fazia noite de breu. Cepo quase temeu. Qualquer coisa poderia acontecer em ruas destas, no entanto sentiu-se encorajado e protegido pela noite. Ía ser agora, sabía-o!

Aproximou-se por trás dos dois homens.
- Quem está aí? – Perguntou Gagueiro meio agressivo, meio borracho.
- Os cavalheiros podiam dar-me uma moedinha para juntar umas batatas à sopa dos meus filhinhos? – Perguntou insinuado, passando-se por menor do que na realidade era, Cara de Cepo.
- Ah! Vá trabalhar homem! – Respondeu o político com maus modos e voltou ao caminho.
O companheiro riu. Ambos riram. Nem foi pela situação do pedinte, mas pela palavra “Cavalheiros”. Eles sabiam que não o eram de todo, embora o aparentassem. Viviam às custas do povo, mas para seu abono. As acções que faziam eram apenas propaganda para angariar votos – primeira lição aprendida por Gagueiro e que decididamente o conquistou para a política.

- Por favor, apenas uma moedinha! – Insistiu o homem.

Ambos os políticos se viraram e Gagueiro, que não gostava de ser contrariado ou de dizer a mesma coisa várias vezes, aproximou-se ligeiro de passos pesados. Desembainhava a espada entretanto, com a ideia de intimidar o pedinte. Quando apenas um passo o separava do homem, sentiu o frio que o atingiu abrupto e sem aviso percorreu o corpo num arrepio. Tinha um objecto metálico, cortante e gelado encostado à garganta que lhe cortou as palavras que se preparava para vociferar. Seguiu o metal frio até encontrar a mão que o empunhava. A espada era pouco usada, via-se. Na pouca luz possível que lhes chegava da lua que começava a crescer, viu reflectida na lâmina o rosto de quem não desejava jamais reencontrar. – Tu!
Cara de Cepo não esperou mais. Sabia que a surpresa era sua aliada.

Lá atrás, Braguinha não compreendia o que se passava. Tentava espreitar o que acontecia, sem resultado. Enquanto o pirata caiu no chão, Cara de Cepo fez uma busca rápida entre as roupas e fugiu.
Braguinha, alarmado, após hesitar uns instantes, correu ao encontro do colega, mas era tarde demais... Apenas ouvira – Tu! 

Deixou-se ficar junto ao corpo. O que passara, nada de novo naqueles tempos ou cidade, estava claro. Remexeu também ele as roupas do morto e ao retirar as mãos vazias gritou – Acudam! Ladrão! Assassino!
Cepo já estava longe. Parou quando chegou ao quarto alugado temporariamente. Regozijou-se apertando o tesouro querido contra si. Era tempo de o voltar a ver. Desembrulhou-o do pano em que o pirata político o protegera sempre e colocou-o contra a luz do candeeiro.



- Gagueiro! Mereces o inferno para onde vais, cão! - De joelhos, Cara de Cepo desesperava. O Cálice não era o seu, mas uma cópia. - Matei-te cedo demais...


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domingo, 12 de dezembro de 2010

O Cálice da Vingança - Parte 2/7

Anos passaram e o Pirata Gagueiro subia na vida com segurança. Tinha boa reputação, boa imagem e palavra. A sua influência aumentava no mundo da política e o nome Gagueiro tornava-se cada vez mais famoso entre os piratas. 

Cara de Cepo mudara para um porto longínquo onde a sua fama ainda não chegara. Sentira-se obrigado a mudar de país, mas como a vida de pirata é mesmo viajar, o contacto com os clientes e amigos... de sempre manteve-se porque eles andavam por todo o lado. Cara de Cepo simplesmente não podia fugir de si próprio por mais que mudasse de cidade. 



O Pirata Tresolho assistia Gagueiro, estava incumbido de fazer passar as suas mensagens, auxiliar nos trabalhos, aconselhar, fazer algum trabalho sujo, etc. Era um homem valoroso e cheio de recursos, o que ajudava a compensar a sua falta de acuidade visual, razão pela qual nascera o nome que lhe atribuíram. Esteve quase para se chamar “Dentes de Alcatrão” não fosse o nome já estar atribuído. Os colegas ainda o incentivaram, propondo ajudá-lo, mas Tresolho acabara por ganhar afecto ao primeiro nome e assim, Gagueiro podia gozar do voto de mais um eleitor porque as eleições estavam à porta.

A aproximação de eleições acarretava o remexer em muitas amizades, mais especificamente, a colecta de favores. Uma vez pirata, sempre pirata... Foi desta maneira que os cartazes do Pirata Gagueiro chegaram ao bar do Cara de Cepo. Um dos clientes a serviço do agora político, pediu-lhe para colocar a publicidade numa das paredes. Qual não foi o espanto quando este se deparou com a cara que figurava no cartaz. Tal como os amigos, também as notícias mantiveram-se em contacto, embora não da vida da política. Pirata que é pirata não perde muito tempo nesses assuntos - não trazem lucro imediato. Só que pirata a sério não tem verdadeiramente amigos, porque a procura de tesouros e ouro fácil, levava-os à traição até das mães. Até aí chegava a honra entre piratas, mas apenas.

Cara de Cepo acedeu ao pedido. – Mas que é feito do Gagueiro? Nunca mais lhe pus as vistas em cima!
- Decidiu-se pela política e parece ter grande futuro.
- Não acredito! Então foi ele que criou o nosso partido?
- Pois foi.
- Olha, olha! Já o estou a imaginar, no parlamento, a gaguejar nos discursos! – Cara de Cepo ria-se desbaratado, embora a cara quase não mexesse músculo. O riso era tão aguacento, que o homem em frente viu-se forçado a limpar a cara dos perdigotos.

- Qual quê! Ele fala como um doutor daqueles que estudou muitos anos!
- Não! Como pode ser?
- Os boatos dizem que ele tem um segredo qualquer, mas ninguém tem a certeza. Fala-se num cálice desaparecido...
- O cálice? – Cara de Cepo ficou esbaforido. Virou costas e desapareceu a resmungar alto.



Quando Cara de Cepo voltou ao balcão do bar, encontrou o cartaz pendurado na parede. Retorceu os lábios de raiva. Os olhos quase saíram de órbita, negros e aterradores. Mais tarde, ao voltar para o quarto que mantinha nas redondezas, passou pelos postes de iluminação raquíticos, com o petróleo apagado há horas, o sol bailava já no céu. Cada poste sustinha um cartaz e cara neles impressa ria. Ria às gargalhadas e a imaginação dele podia ouvi-las. Faziam pouco dele. Retirou o facalhão do cinto e cortou lascas na madeira exactamente em cima dos cartazes. Estava decidido, iria regressar e procurar o Pirata Gagueiro. Estava com muita sede e esta era de vingança. 

O Pirata Gagueiro andava muito ocupado. Nunca havia imaginado que as eleições lhe pudessem dar tanto trabalho, mas estava decidido a ir em frente. Sentia falta de pertencer à tripulação de um navio, do companheirismo, de empenhar a espada sem receio de lhe apontarem o dedo ou uma arma. Na cidade só se podia desembainhar uma espada para defender a honra, se bem que se pudesse usar esse argumento para variadas situações, a preferência dos gentlemen que ele desafiava, ia para as armas de fogo e como o desafiado é que escolhia... Ora, para um pirata com saudades do combate corpo a corpo, isso era demasiado impessoal, já para não dizer, fácil. Virar-se e disparar antes do adversário, para terminar o combate com vida, era um dos truques do Pirata Gagueiro. E como o morto já não podia reclamar, o seu padrinho de duelo tão-pouco ia arriscar a pele por um defunto, ficava tudo por ali. A certa altura o pirata deixou de ter pessoas a fazerem-lhe frente, começaram a evitá-lo. A reputação a decair, a imagem a alterar-se. Às vezes ele não conseguia compreender as pessoas da cidade...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Cálice da Vingança - Parte 1/7


 


Entre a escuridão da sala, comandava destinos além do seu. Buscava incessante a saída daquele sítio onde viera parar – um bar de piratas. Passava todos os dias por mãos indelicadas, mal-cheirosas e cheias de calos, que tal facto agravava a sua disposição.

-Raios, raios, raios! Sempre a mesma coisa! Mas que raio de vida é esta? Não fui feito para isto!

Os outros, cálices de menor estirpe, segundo ele, ouviam-no em silêncio. Por vezes tinham-lhe medo e por isso deixaram de responder quando ele falava naquele tom – Raios, raios, raios! - Ia ser mais um daqueles dias como aliás, se estava a tornar costume desde que enfiou no seu teimoso cristal colorido e metalizado, a ideia de vingança.
Queixava-se de novo o velho cálice. Não que fosse velho pela idade, fora confeccionado apenas há uns meses, três para ser exacta, mas pela disposição que tinha todas as vezes que se apresentava ao trabalho. – Eu não fui feito para trabalhar como vós! Eu fui criado para me apresentar apenas em cerimónias, em ocasiões especiais. Assim foi traçado o meu destino – com glória! - Ainda não havia começado o dia e já estava cabisbaixo, derrotado, excepto quando pensava no seu plano. - Que futuro tão promissor tinha pela frente. Servir reis e rainhas, a comandar os destinos do mundo... Ah! Mas vocês vão ver! O meu plano é fenomenal! Todos os que beberem de mim vão querer repetir e nem vão perceber o porquê!

Os outros copos entreolhavam-se e como não podiam fazer nada contra ideias tão gabarosas, recolhiam-se ao que ficou imposto ser a sua insignificância. Afinal eles eram apenas feitos de metal esmaltado colorido com incrustações de vidro a imitar os verdadeiros cálices.


 


As primeiras luzes acendiam. Pouco era o tempo de descanso. A vida num bar de piratas não era fácil. Os piratas eram conhecidos pelas suas noites intermináveis, bebedeiras intermináveis e... lutas intermináveis. O cálice estava cansado, mas decidido. Possuía um trunfo que ninguém desconfiava, nem mesmo quem o comprara por uma bagatela, o Pirata Cara de Cepo. Era chamado assim porque quando jovem andara tanto à luta com outros piratas que a cara perdera a capacidade de mostrar expressões. Uma história triste no entanto, já que grande parte das lutas perdeu-as e a sua vida como saqueador dos mares teve pouco êxito. Do que tinha em coragem, pouca, sobrava-lhe em persuasão. Fizera o bar, já que todos os seus conhecidos eram corsários velhacos, visualizou assim maneira de fazer fortuna sem correr tantos riscos. Depois de se apanhar tanto, o que se deseja a certa altura, é descanso. Pagou para que os companheiros divulgassem o bar e prometeu-lhes uma parte nos lucros. Mas ele era tão velhaco que lhes dizia ter dividido as moedas aquando da entrada deles no bar, pelo que também lhes dizia, que gastavam lá todas as moedas ganhas sem nunca lhes ter dado nenhuma. Os companheiros nunca desconfiaram de nada já que todos os dias que por lá passavam gastavam tudo o que tinham e, no fim, já arrastando-se pelas ruas, caídos de bêbados, nunca se poderiam lembrar do que se passara antes. Por vezes, à conta de um olho negro e uns dentes partidos, podiam apenas imaginar como havia sido a noite anterior. 

Homem de negócios cheio de ideias e montes de crenças, Cara de Cepo embarcou num encantamento desde o momento que vira o cálice. Todas as peças do bar apareceram quase como por magia, digamos que por... persuasão... E por isso não tinha duas mesas, dois copos iguais. O cálice fora a única peça realmente comprada e colocada em local de destaque.

O cálice apercebeu-se desde o primeiro momento do destino que lhe estava a traçar o seu dono. Nada do que estava a acontecer-lhe era parte do destino original. O que diriam os seus pais daquilo? Ele, uma peça tão nobre, ali num bar de piratas? – Eles vão ver!... Eu?! A ser vendido dessa maneira e ainda por cima regateado?! Vão ver, vão ver!

Os primeiros piratas a entrar, olhavam para o centro do bar. Lá figurava o cálice. Embora comercialmente não tivesse grande valor, era o seu porte e anterior destino que lhe emprestava a cobiça com que todos o olhavam. – O rum sabe melhor quando bebido pelo cálice - diziam. Todas as noites apenas uma pessoa podia usufruir dele e era precisamente quem tivesse as bolsas mais recheadas. Os piratas chegavam lá a gabar-se dos seus feitos e aquele que mostrasse mais ouro ou prometesse sair de lá com os bolsos mais vazios, bebia do cálice, até ficar de bolsa mais leve. Logo passava a oportunidade a outro.

-E porque foste para uma loja em vez do altar do rei? – Perguntou-lhe uma vez um dos cálices esmaltados.
-Bah! Só porque falhou a mão ao meu criador. Nem se nota nada... – Era esta a grande vergonha e o que desviara o grande cálice do destino para ele fadado. Uma falha que apenas olhos treinados poderiam observar e que certamente naquele bar ninguém notara. Uma bolha no topo do pé do cálice que transformara perfeição em defeito pois estava ligeiramente descentrada. Caso contrário, seria de valor incalculável.
Os copos tinham-lhe medo. Ouviam-no preferir palavras de maldizer e ficavam a imaginar o que seria que passava naquele cálice sedoso de vingança sem se atreverem a perguntar. 

- Afinal qual é o plano? - Este cálice esmaltado era novo naquelas paragens e bastante atrevido, provavelmente fruto da juventude.

Todos ouviam interessados e os que não conseguiam ouvir por estarem longe, esperavam ansiosos o passa palavra sobre o que era dito pelo cálice maldito.

- Sempre que bebem através de mim, libero na bebida parte da minha composição.
- Para quê? – Perguntava o copo imberbe.
- Assim eles ficam viciados em mim. Com certeza já reparaste como todos lutam por me ter nas mãos...
- É por isso?
- Certamente! E a minha imponência, claro!
- Claro... – O jovem quase ria com tanta prepotência. – Mas isso não é perigoso?
- Eles sobreviverão. É só até conseguir sair daqui. Tenho de fazer com que lutem por mim para que um deles me roube e me leve a outras paragens.
- E como sabe, se quem o levar não o vai vender?
- Assim espero! E se não o fizer, há-de ter uma morte terrível.
Um dos copos que se encontrava mais perto, conseguiu chegar-se ao jovem e subtilmente avisá-lo para não continuar a conversa. Puxou-o dali enquanto o cálice continuava a ladainha para consigo.

Nessa mesma noite, os ânimos estavam exaltados, mais do que o costume. Palavra puxa palavra, e porque dois piratas estavam empatados quanto à maquia conquistada nesse dia, não houve decisão clara quanto a quem usaria a relíquia em primeiro lugar. Ambos queriam ter as honras da noite e como nenhum cedeu... navalha puxa navalha.

No meio da confusão um espertalhão aproveitou o facto de todos terem o olhar fixo na luta. Agarrou o prémio e fugiu porta fora. Foi só numa das ruas mais adiante que o ladrão se apercebeu que estava a ser seguido. O medo de ser privado do recente tesouro levou-o a tentar esconder-se o mais depressa possível nos cantos da noite. A perseguição durou. Quem o seguia tinha a alcunha de Pirata Gagueiro devido à sua imperfeição de fala e não desistia nunca do que tinha em mente. Por vezes demorava-se nas sílabas, mas ninguém se atrevia a fazer pouco dele na sua presença, não depois do sangue corrido à sua conta. A fama de persistente acompanhava-o onde quer que fosse e estava claro que ia levar esta tarefa até ao final. Vira o ladrão pegar o cálice desejado no meio da confusão. Ele estava demasiado longe para executar a sua ideia com rapidez suficiente e fora ultrapassado pelo Pirata Fininho, assim chamado com justiça ao corpo delgado que o permitia esquivar-se dos outros durante as lutas e tirar o máximo proveito das situações.


 


Entraram nas mais escuras ruas da cidade, brincaram ao jogo do gato e do rato para no fim, o rato, ser inevitavelmente apanhado.

Ninguém sentiu a sua falta, embora o Cara de Cepo tivesse pena. Gostaria de ele próprio ter feito o serviço. Agora nunca iria descobrir quem tinha o precioso cálice. O bar iria perder clientela e teria de recomeçar tudo noutro porto. Estava arruinado.

A motivação de cada pirata para possuir aquele troféu estava relacionada directamente com as especificidades pessoais e o que objecto em questão podia fazer em cada caso. Quer fosse real ou apenas sugestão, o certo é que todos partilhavam a convicção dos poderes especiais que o cálice lhes transmitia. No caso do Pirata Gagueiro, após beber dali, este podia falar eloquentemente. O sonho de criança voltava após aquele milagre. Se falasse bem, podia mudar de profissão e dedicar-se à política. Estava na hora de criar o tão comentado entre os pares - “Partido dos Piratas”. Esperava-o uma vida fantástica, cheia de poder e dinheiro fácil. Os dias de frio e tempestades no mar com perigo para a sua vida terminaram. 

Começou por comprar roupas melhores, cortar o cabelo, procurar as pessoas certas para o ensinar as coisas da política... Ah! E tomar banho!

(Continuação na próxima semana)
Parte 2/7 AQUI

domingo, 28 de novembro de 2010

O brilho dos teus olhos, lembras?


 


Lembras-te de quando eras criança e tudo te sabia maravilhosamente bem?
E as cores eram vivas? As brincadeiras eram a vida?
E a vida sabia bem!
Tinhas esperança e confiavas em tudo o que fazias. Acreditavas em ti.

O que mudou?
Cresceste. Foi o que aconteceu.
Se mudarmos como vemos o mundo, ele muda. Quando começaste a ver o mundo como teu inimigo?

Faz a seguinte pergunta: Fui eu que desejei crescer ou foi o mundo que o exigiu?
E depois sê sincer@, muito sincer@ contigo e responde mais uma vez: Foi mesmo preciso?
Foi precisa a mutilação?

A relva continua a ser cortada e o cheiro a fresco, a cheirar a fresco. O chocolate continua a saber a chocolate e os espinafres, a espinafres.
Por que comes agora as verduras que antes rejeitavas? Por que comes agora chocolate?
E por que te sabe melhor ouvir as músicas da tua infância e juventude?
Os desenhos animados que vias e agora revês com os teus filhos, lembram-te de como eras? Fazem os teus olhos brilhar? Fazem-te sonhar?


Relembra-te.

Vai ao espelho depressa e vê-te. Abre bem os olhos e procura. Ainda estás aí, algures. Entra nos teus olhos, nos teus sonhos, na tua luz.

Não os abandones.
Não te percas, redescobre-te. 


SEI QUE CONTINUAS AÍ.