Apresentação do "Ups! Engoli uma Estrela" de Adoa Coelho, dia 18.09.2011 em Moimenta da Beira, a cargo da actriz Maria Henrique.
A arte copia a vida excepto, quando a vida segue os passos experimentados no campo da arte.
Digo experimentados porque grande parte das vezes são mesmo ideias que um ou uma autora tem e é através da arte que verifica a execução da ideia.
Por exemplo, quando me lembro do filme com o Jim Carrey - “Truman Show”. O filme é um Big Brother focado numa só pessoa, como o que se faz com as pessoas mais ou menos famosas nos programas cor-de-rosa. A ideia veio de trás, de um livro, o “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” de George Orwell que descreve essa sociedade. Publicado pouco depois da segunda guerra mundial, acredito que a musa tenha sido a vida. Os dois opostos eram vividos na Europa de então, o comunismo e o nazismo, ambos com resultados desastrosos e com técnicas que nem sendo retratadas na ficção convencem de que sociedades sob vigilância não são propriamente saudáveis. Mas eis que as voltas voltam a rodar... Décadas mais tarde começa um programa que se tornará um sucesso a nível mundial – “O Big Brother”! Não é surpresa, pois não?
Depois fizeram variações com famosos em quintas e sei lá mais onde. Variações sem variedade. Excepto... que nas cidades, e por questões de segurança, porque isto é tudo a pensar no bem geral... As câmaras de vigilância estão por aí. Mas nós gostamos e até já estamos habituados.
Poderemos pensar que é mesmo tudo para o nosso bem como quase nos faz pensar assim Isaak Asimov no “Eu, robot” (não, pouco tem a ver com o filme que fizeram...), em que as máquinas acabam por tomar destas crianças malcriadas que somos os humanos. Ou o “Minority Report” do Philip K. Dick, onde finalmente o crime é combatido até antes de cometido.
Para onde nos levará a vida, não sabemos. São tempos conturbados estes que agora vivemos. Não sei se a Humanidade deveria mudar os programas escolares e mudar “história” para “Ficção”, científica ou nem por isso. Como a história está sempre a repetir-se, não valerá a pena estudá-la, mais vale preparar-nos para o que virá.
Na faculdade, quando estudei estética, o professor falou num personagem, um artista frustrado. E como falhou nas artes, tentou fazer o Mundo segundo o sonho que tinha. Imaginou um Mundo com pessoas perfeitas, todas loiras e com olhos azuis. Usou a ciência como instrumento. Hitler usou também os meios artísticos disponíveis na época para servir a propaganda política. Leni Riefenstahl fez as obras de artes “O Triunfo da Vontade” (1934) e “Olympia” (1936) ao seu serviço. Podemos, portanto, ter uma ideia bastante claro de como o Mundo de hoje seria se os planos desse homem tivessem vingado. Seria uma espécie de “Admirável Mundo Novo”. Não sei se com o mesmo nível de evolução científica como na obra do Aldous Huxley, creio que com bastantes semelhanças.
Talvez o caso mais fácil de perceber seja o de L. Ron Hubbard, por ser mais directo, por que passou de escritor de ficção científica a criador da Cientologia. No fundo, quando se escreve, pinta, faz um filme, etc, é para contar uma história e ninguém conta história se não pensa que está a mudar algo no seu receptor – um ponto de vista social, político, psicológico,... Humano.
Teorias serão apenas teorias.
O Mundo é tão fascinante que por vezes nem se compreende bem o que influencia o quê. Agora e para nos enquadrarmos na conjunção portuguesa, a que no fundo nos diz respeito, temos as agências de Rating. Uma espécie de Big Brother a nível mundial, se quisermos usar uma pitada de humor. Já se fala em privatizar a RTP, a TAP, a água... Pouco faltará para as medidas chegarem ao ar como neste sketch da Maria Ruef! Ou estarei enganada?
Resta-nos abrir os olhos. Os fãs de crimes terão outra leitura deste Mundo. Os fãs do portal das finanças têm outra certamente.
Unicamente posso afirmar que a realidade será sempre o que é, independentemente de gostarmos dela ou não, Adoa a quem doer...
O ano passado encontrei no chão, perdida, abandonada à sua sorte, a espada de Peter Pan. Uma criança a terá perdido. Resgatei-a.
Mal sabia que a viria usar nesta tarefa de voltar à tranquilidade da escrita.
Há sempre uma mosca que teima em fazer-me companhia...
Mas não foi sozinha que enfrentei esta aventura. A Wendy, ao aperceber-se da situação, veio ajudar.
Se existe a mosca da televisão, por que não a do escritor?
The pen is mightier than the sword?
Well, sometimes!
:o)
Porque às vezes preciso de saber isto.
Porque às vezes a insegurança, ao contrário de nos ajudar a dar o nosso melhor, nos impede de fazer até o mínimo.
A ler: "Keep Calm and Write Your Damn Book"
Quando comecei a escrever o "Ups! Engoli uma estrela" não sabia do que iria escrever. Tinha uma ideia, sim, e era tudo. Da ideia nasceu uma história e... Tudo começou com essa história.
A fome de saber mais sobre o personagem principal foi o mote. E quando temos fome, esta só passa mesmo quando a saciamos. Mas só tinha um herói. As histórias precisam de anti-heróis para se desenvolverem. Tinha três capítulos na mão e estava parada, agarrada às ideias soltas que continuavam a surgir para a história.
Devo dizer que me custou bastante pensar neste personagem. Não queria fazer nada de já conhecido. Procurei em mim. Procurei nas histórias que nesse ano havia escrito e achei. Parecia magia! O meu anti-herói já estava construído e tinha nascido exactamente da mesma maneira que o herói. Só podia estar tudo certo.
Daí para a frente a história ia-se revelando perante os capítulos que saíam. Demorei três meses a escrever o primeiro dos livros. Nesta altura pensei que estava a enlouquecer porque só pensava na história. Tornara-se o meu mundo e parei.
Parei porque eu, autora, estava a ser sugada e precisava ter uma certa perspectiva.
Dei a ler a um amigo que prometeu fazer uma crítica. Esta foi a melhor ajuda que poderia ter tido. Havia um problema com os personagens. Primeiro recusei, mas fiz pesquisa, li livros dentro do mesmo género, estudei sobre construção de personagens e decidi-me - construí a biografia dos personagens. Depois de ter dado o primeiro "não" a uma editora, foi a altura de receber o primeiro "não" de uma editora!
Ainda havia aspectos a melhorar. Reli, reli e reli o primeiro livro.
- quais os medos
- qual a história pessoal
- profissão
- de onde vêm
- para onde vão
- feições
- descrição física
- defeitos
- qualidades
- signos
- ...
O mundo já estava construído, as regras/leis destes mundos também foram clarificadas neste processo. Cheguei a fazer desenhos dos personagens - ajudou imenso.
Enquanto procurava pela editora certa, entre vários "não" e sim", pensava no segundo livro, pesquisava, lia, reescrevia/melhorava o primeiro. Foi já no processo de escrita deste segundo livro que compreendi a sério os personagens. Eles ditam-me claramente o que querem. Têm vida própria. Tudo isto faz parte integrante da narrativa. Tudo isto ajudou a construir a história.
Agora, que o primeiro dos livros saiu e escrevo o terceiro e último livro, o processo tornou-se mais simples dentro da sua complexidade. A insegurança continua, mas também é o que me leva a pesquisar e dar o meu melhor. Questiono tudo mas acabo por seguir o que é certo para a história. É ela que conta, não eu.
Hoje deparei-me com este site que fala do processo de escrita da J. K. Rowling. "Are You The Next JK Rowling?" - perguntam. Ela é deveras uma mulher inteligente e percebe-se, pela maneira como as histórias estão contadas, que sabe contar uma boa história como ninguém.
Tudo isto para dizer que se planearmos toda a história teremos o processo de escrita facilitado.
Planear (biografias dos personagens, criação do mundo, estrutura da história)
Escrever (dar um título ajuda a clarificar o que pretendemos desse capítulo específico)
Reescrever (Ver em que pontos a história pode ser melhorada. Há falhas na estrutura? Ser cruel e cortar o que não interessa. Nós sobrevivemos com isso, a história, não.)
Editar (Esta parte deveria ser feita por alguém experiente. Editores - são pessoas que conhecem como os livros funcionam no mercado.)
Ouvir o que as editoras têm a dizer é muito importante. No meu caso, o título original estava errado. Completamente errado! A editora aconselhou a mudá-lo. Foi uma verdadeira luta, até que pensei em como poderia descrever os livros em apenas uma frase... (Se não repararam, isto é uma dica.)
Este é um texto bastante elucidativo do papel que os contos de fadas podem ter nos dias de hoje.
Se o papel das fadas e bruxas ainda existe metaforicamente, poderemos atribuir-lhes o poder de aproximar os valores destes seres aos valores defendidos pelas sociedades ocidentais actuais.
Quando Bruno Bettelhein em "A Psicanálise dos Contos de Fadas" defende que as crianças deveriam crescer ouvindo contos de fadas tradicionais, repletos de instrumentos de socialização (ou serão socialmente instrumentalizáveis?) creio que esses contos podem servir também para a eternização de vários estigmas sociais e das receitas de muitos psiquiatras.
As princesas têm de ser salvas por um príncipe e a partir daí serão felizes para sempre. - Será que uma mulher precisa de ser salva? Do quê? As mulheres serão incapazes de se defenderem? É o casamento a sua salvação? ... “Felizes para sempre”? Onde é que alguma vez existiu isso? Aqui estão algumas fórmulas para a insatisfação, tristeza e frustração de muitas mulheres que ainda acreditam em contos de fadas.De novo, na história do “Capuchinho Vermelho”, a criança/menina/adolescente, tem de ser salva do “lobo mau”/homem/sexo. De novo o elemento do sexo feminino precisa de ajuda – e não há mal nenhum em precisar de ajuda e saber como a pedir – a questão em foco é: mais papéis sociais. O homem tem aqui vários papéis que poderá desenrolar – o “lobo mau”/o homem que extravia a inocente do seu caminho de pureza..., o caçador/príncipe/herói. De resto, papéis bastante limitativos.
Esta entrevista, do psicólogo Zenon Lotufo Jr., pode dar-nos um outro ponto de vista.
E quando uma pessoa não quer jogar nenhum destes papéis? E se as pessoas estão para além do que lhes atribuem na sociedade?
Quando uma mulher está bem não se casando, quando uma criança sabe defender-se sozinha, quando um homem se dá o direito de ser sensível e não andar em actividades predadoras... quando as pessoas insistirem em apenas SER.
No fundo todos nós contamos as nossas histórias, mas com imensas limitações, as limitações de que a história do “outro” é melhor que a minha ou, que a história, para ser melhor e mais bonita que a d@ visinh@, deve ser assim... comparamos o incomparável. E andamos a contar as mesmas histórias de uns e outros há séculos.
Inventem-se novas histórias, invente-se um novo mundo. Melhor que isso. Não se invente história alguma. Mas porquê ter uma história? Libertemo-nos. Que as pessoas sejam livres de SER e, se quiserem, elas próprias contar as suas histórias ou nenhuma. Bem-vind@s à co-criação do Mundo!
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