Gaia (Adoa Coelho)

Gaia é a personificação do antigo poder matriarcal das antigas culturas Indo-Européias. É a Grande Mãe que dá e tira, que nutre e depois devora os próprios filhos após sua morte. É a força elementar que dá sustento e possibilita a ordem do mundo. Nos mitos gregos, os conflitos entre Gaia e as divindades masculinas representam a ascensão do poder patriarcal e da sociedade grega sobre os povos pré-existentes.

domingo, 2 de janeiro de 2011

O Cálice da Vingança - Parte 3/7

O sucesso e a pequena fortuna acumulados em poucos anos de cidade, chamaram a atenção para a sua pessoa. Os homens apontavam as mulheres, mas eram eles que mais cuscavam, ali e arredores. Sendo-lhes favorável, não tinham pudor algum em iniciar rumores ou intrigas. No fundo, eram mais parecidos com os piratas do que gostavam de pensar. Só que os piratas éram-no abertamente. 

E os rumores diziam que o Pirata Gagueiro usava qualquer coisa, magia negra. Sabiam que ele apenas bebia daquele cálice estranho. Não deixava ninguém aproximar-se dele e se lhe perguntavam, agia com estranheza. Tornava-se esquivo e agressivo. Era sabido que ele tinha as suas manias. Apesar de se vestir segundo a moda na cidade, continuava a usar aquele chapéu de pirata – Um pirata sem o seu chapéu, é apenas meio pirata! – Berrava. Digamos que tinha umas arestas a limar... Mas a curiosidade de quem anseia pelo poder, não tem limites e a corrupção entre os homens do pirata político era gritante. Todos tentavam saber os truques mais ocultos, Gagueiro não se descosia nem para os dele. 

Vários políticos davam-se com o pirata e Braguinha era um deles. Homem de maneiras aprendidas e ambicioso, com tal identificava-se com Gagueiro. Elegante, a cara desenhava o contorno do instrumento musical que lhe dava o nome. Eram colegas de algumas aventuras menos políticas e menos morais. Um com o outro aprendiam, cada qual a especialidade do amigo. Braguinha requeria sempre o companheiro para seu padrinho de desafios. Aprenderam a defender-se um ao outro e a retirar daí todas as vantagens. Faziam quase tudo juntos, excepto as actividades mais íntimas de qualquer casal, porque ambos eram muito machos. E divertiam-se muito sempre que percorriam os bares na noite. Bebiam e comiam interminavelmente. O pirata, já sabido das lides de beber, deixava o amigo tomar-lhe a dianteira para lhe puxar pelos segredos que, já sem defesa, desbobinava alegremente. Só depois relaxava, o pirata Gagueiro, e bebia finalmente do seu adorado cálice.

O cálice... continuava a sua estratégia. Este apercebeu-se da contínua aproximação do Braguinha e estava resolvido a finalmente dar mais passos no seu plano.
Cara de Cepo chegara à cidade. Procurou pelos bares onde encontrar aquele que, segundo os pensamentos afluentes na sua árdega mente desde que vira o maldito cartaz, se tornou o seu inimigo. mortal. Sentava-se nos cantos mais escuros de cada bar e sondava. Tornara-se bastante insidioso. Totalmente vestido de negro, ninguém o reconhecia à primeira vista. Foi assim que logrou encontrar o político pirata. Alguém avistara-o naquele bar e Cara de Cepo correu ao seu encontro. Entrou e esperou que ele e o colega saíssem. Não tardou muito.

A ronda da noite ainda ía a meio. Cantavam os dois embriagados. Cepo saltava de sombra em sombra. Desde o momento em que chegaria à cidade, não tocaria numa gota de rum – prometeu-se. Mas sentia-lhe a falta. Tragava um pequeno gole, o suficiente para aguentar mais um pouco. Mas esses espaços de tempo entre goles tornavam-no mais ansioso e bebia o próximo gole com maior avidez que o anterior. Bebia o rum conforme a sede de raiva e acabava por deitar tudo a perder. Não conseguia terminar o plano. Ou porque havia muita gente nas ruas ou porque se descuidava e caía para a luz tornando-se visível a todas as almas. Outra noite em que o Cálice lhe fugia das mãos. – Amanhã, não escapas! – Tecia, faz algumas noites já.


Mas planos, todos fazem e Braguinha, que nada tinha de inocente apesar de fraco bebedor, também fazia os seus. A noite seguinte foi de borga como hábito. Igualmente beberam juntos para acompanhar a bebida. Braguinha, que tinha por mau costume comer e falar com a boca cheia, salpicava Gagueiro com pedaços meio mastigados, salivados, do seu porco assado. Gagueiro fazia o que podia para se esquivar. O truque, aprendera-o Braguinha nas noites anteriores. Apenas quando o pirata estava sóbrio, é que se desviava dos perdigotos. Não lhe fora fácil, mas forjara as últimas bebedeiras. Entre gargalhadas e piadas e apalpanços às moçoilas que lhes traziam as bebidas, conseguia verter para o chão e para as pessoas ao seu redor grande parte do que deveria consumir com o subir das taças no ar e o tchim tchim típico de quem tem muito a celebrar, outra parte ensopava nas roupas ao deixar a bebida escorrer pelo canto da boca. Ao fim da noite tão-pouco importava o quão molhado estava, a mistura do rum com o suor estagnava o ar, mas parece que os alcoolizados a dada altura, perdem a agudeza de alguns dos seus sentidos...

Alheio a estes planos, Cepo fazia mais uma tentativa de recuperar o que fora anteriormente seu. A perseguição voltara às ruas. Desta vez não podia beber, não, não podia. Tinha de se concentrar. Tudo corria bem. Até as sombras pareciam ajudar de grandes que estavam. Olhou para as lamparinas dos postes, estavam muitas delas apagadas. Havia um par de ruas que se encontravam parcialmente às escuras. Fazia noite de breu. Cepo quase temeu. Qualquer coisa poderia acontecer em ruas destas, no entanto sentiu-se encorajado e protegido pela noite. Ía ser agora, sabía-o!

Aproximou-se por trás dos dois homens.
- Quem está aí? – Perguntou Gagueiro meio agressivo, meio borracho.
- Os cavalheiros podiam dar-me uma moedinha para juntar umas batatas à sopa dos meus filhinhos? – Perguntou insinuado, passando-se por menor do que na realidade era, Cara de Cepo.
- Ah! Vá trabalhar homem! – Respondeu o político com maus modos e voltou ao caminho.
O companheiro riu. Ambos riram. Nem foi pela situação do pedinte, mas pela palavra “Cavalheiros”. Eles sabiam que não o eram de todo, embora o aparentassem. Viviam às custas do povo, mas para seu abono. As acções que faziam eram apenas propaganda para angariar votos – primeira lição aprendida por Gagueiro e que decididamente o conquistou para a política.

- Por favor, apenas uma moedinha! – Insistiu o homem.

Ambos os políticos se viraram e Gagueiro, que não gostava de ser contrariado ou de dizer a mesma coisa várias vezes, aproximou-se ligeiro de passos pesados. Desembainhava a espada entretanto, com a ideia de intimidar o pedinte. Quando apenas um passo o separava do homem, sentiu o frio que o atingiu abrupto e sem aviso percorreu o corpo num arrepio. Tinha um objecto metálico, cortante e gelado encostado à garganta que lhe cortou as palavras que se preparava para vociferar. Seguiu o metal frio até encontrar a mão que o empunhava. A espada era pouco usada, via-se. Na pouca luz possível que lhes chegava da lua que começava a crescer, viu reflectida na lâmina o rosto de quem não desejava jamais reencontrar. – Tu!
Cara de Cepo não esperou mais. Sabia que a surpresa era sua aliada.

Lá atrás, Braguinha não compreendia o que se passava. Tentava espreitar o que acontecia, sem resultado. Enquanto o pirata caiu no chão, Cara de Cepo fez uma busca rápida entre as roupas e fugiu.
Braguinha, alarmado, após hesitar uns instantes, correu ao encontro do colega, mas era tarde demais... Apenas ouvira – Tu! 

Deixou-se ficar junto ao corpo. O que passara, nada de novo naqueles tempos ou cidade, estava claro. Remexeu também ele as roupas do morto e ao retirar as mãos vazias gritou – Acudam! Ladrão! Assassino!
Cepo já estava longe. Parou quando chegou ao quarto alugado temporariamente. Regozijou-se apertando o tesouro querido contra si. Era tempo de o voltar a ver. Desembrulhou-o do pano em que o pirata político o protegera sempre e colocou-o contra a luz do candeeiro.



- Gagueiro! Mereces o inferno para onde vais, cão! - De joelhos, Cara de Cepo desesperava. O Cálice não era o seu, mas uma cópia. - Matei-te cedo demais...


Parte 4/7 AQUI

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Cálice da Vingança - Parte 2/7

Anos passaram e o Pirata Gagueiro subia na vida com segurança. Tinha boa reputação, boa imagem e palavra. A sua influência aumentava no mundo da política e o nome Gagueiro tornava-se cada vez mais famoso entre os piratas. 

Cara de Cepo mudara para um porto longínquo onde a sua fama ainda não chegara. Sentira-se obrigado a mudar de país, mas como a vida de pirata é mesmo viajar, o contacto com os clientes e amigos... de sempre manteve-se porque eles andavam por todo o lado. Cara de Cepo simplesmente não podia fugir de si próprio por mais que mudasse de cidade. 



O Pirata Tresolho assistia Gagueiro, estava incumbido de fazer passar as suas mensagens, auxiliar nos trabalhos, aconselhar, fazer algum trabalho sujo, etc. Era um homem valoroso e cheio de recursos, o que ajudava a compensar a sua falta de acuidade visual, razão pela qual nascera o nome que lhe atribuíram. Esteve quase para se chamar “Dentes de Alcatrão” não fosse o nome já estar atribuído. Os colegas ainda o incentivaram, propondo ajudá-lo, mas Tresolho acabara por ganhar afecto ao primeiro nome e assim, Gagueiro podia gozar do voto de mais um eleitor porque as eleições estavam à porta.

A aproximação de eleições acarretava o remexer em muitas amizades, mais especificamente, a colecta de favores. Uma vez pirata, sempre pirata... Foi desta maneira que os cartazes do Pirata Gagueiro chegaram ao bar do Cara de Cepo. Um dos clientes a serviço do agora político, pediu-lhe para colocar a publicidade numa das paredes. Qual não foi o espanto quando este se deparou com a cara que figurava no cartaz. Tal como os amigos, também as notícias mantiveram-se em contacto, embora não da vida da política. Pirata que é pirata não perde muito tempo nesses assuntos - não trazem lucro imediato. Só que pirata a sério não tem verdadeiramente amigos, porque a procura de tesouros e ouro fácil, levava-os à traição até das mães. Até aí chegava a honra entre piratas, mas apenas.

Cara de Cepo acedeu ao pedido. – Mas que é feito do Gagueiro? Nunca mais lhe pus as vistas em cima!
- Decidiu-se pela política e parece ter grande futuro.
- Não acredito! Então foi ele que criou o nosso partido?
- Pois foi.
- Olha, olha! Já o estou a imaginar, no parlamento, a gaguejar nos discursos! – Cara de Cepo ria-se desbaratado, embora a cara quase não mexesse músculo. O riso era tão aguacento, que o homem em frente viu-se forçado a limpar a cara dos perdigotos.

- Qual quê! Ele fala como um doutor daqueles que estudou muitos anos!
- Não! Como pode ser?
- Os boatos dizem que ele tem um segredo qualquer, mas ninguém tem a certeza. Fala-se num cálice desaparecido...
- O cálice? – Cara de Cepo ficou esbaforido. Virou costas e desapareceu a resmungar alto.



Quando Cara de Cepo voltou ao balcão do bar, encontrou o cartaz pendurado na parede. Retorceu os lábios de raiva. Os olhos quase saíram de órbita, negros e aterradores. Mais tarde, ao voltar para o quarto que mantinha nas redondezas, passou pelos postes de iluminação raquíticos, com o petróleo apagado há horas, o sol bailava já no céu. Cada poste sustinha um cartaz e cara neles impressa ria. Ria às gargalhadas e a imaginação dele podia ouvi-las. Faziam pouco dele. Retirou o facalhão do cinto e cortou lascas na madeira exactamente em cima dos cartazes. Estava decidido, iria regressar e procurar o Pirata Gagueiro. Estava com muita sede e esta era de vingança. 

O Pirata Gagueiro andava muito ocupado. Nunca havia imaginado que as eleições lhe pudessem dar tanto trabalho, mas estava decidido a ir em frente. Sentia falta de pertencer à tripulação de um navio, do companheirismo, de empenhar a espada sem receio de lhe apontarem o dedo ou uma arma. Na cidade só se podia desembainhar uma espada para defender a honra, se bem que se pudesse usar esse argumento para variadas situações, a preferência dos gentlemen que ele desafiava, ia para as armas de fogo e como o desafiado é que escolhia... Ora, para um pirata com saudades do combate corpo a corpo, isso era demasiado impessoal, já para não dizer, fácil. Virar-se e disparar antes do adversário, para terminar o combate com vida, era um dos truques do Pirata Gagueiro. E como o morto já não podia reclamar, o seu padrinho de duelo tão-pouco ia arriscar a pele por um defunto, ficava tudo por ali. A certa altura o pirata deixou de ter pessoas a fazerem-lhe frente, começaram a evitá-lo. A reputação a decair, a imagem a alterar-se. Às vezes ele não conseguia compreender as pessoas da cidade...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Cálice da Vingança - Parte 1/7


 


Entre a escuridão da sala, comandava destinos além do seu. Buscava incessante a saída daquele sítio onde viera parar – um bar de piratas. Passava todos os dias por mãos indelicadas, mal-cheirosas e cheias de calos, que tal facto agravava a sua disposição.

-Raios, raios, raios! Sempre a mesma coisa! Mas que raio de vida é esta? Não fui feito para isto!

Os outros, cálices de menor estirpe, segundo ele, ouviam-no em silêncio. Por vezes tinham-lhe medo e por isso deixaram de responder quando ele falava naquele tom – Raios, raios, raios! - Ia ser mais um daqueles dias como aliás, se estava a tornar costume desde que enfiou no seu teimoso cristal colorido e metalizado, a ideia de vingança.
Queixava-se de novo o velho cálice. Não que fosse velho pela idade, fora confeccionado apenas há uns meses, três para ser exacta, mas pela disposição que tinha todas as vezes que se apresentava ao trabalho. – Eu não fui feito para trabalhar como vós! Eu fui criado para me apresentar apenas em cerimónias, em ocasiões especiais. Assim foi traçado o meu destino – com glória! - Ainda não havia começado o dia e já estava cabisbaixo, derrotado, excepto quando pensava no seu plano. - Que futuro tão promissor tinha pela frente. Servir reis e rainhas, a comandar os destinos do mundo... Ah! Mas vocês vão ver! O meu plano é fenomenal! Todos os que beberem de mim vão querer repetir e nem vão perceber o porquê!

Os outros copos entreolhavam-se e como não podiam fazer nada contra ideias tão gabarosas, recolhiam-se ao que ficou imposto ser a sua insignificância. Afinal eles eram apenas feitos de metal esmaltado colorido com incrustações de vidro a imitar os verdadeiros cálices.


 


As primeiras luzes acendiam. Pouco era o tempo de descanso. A vida num bar de piratas não era fácil. Os piratas eram conhecidos pelas suas noites intermináveis, bebedeiras intermináveis e... lutas intermináveis. O cálice estava cansado, mas decidido. Possuía um trunfo que ninguém desconfiava, nem mesmo quem o comprara por uma bagatela, o Pirata Cara de Cepo. Era chamado assim porque quando jovem andara tanto à luta com outros piratas que a cara perdera a capacidade de mostrar expressões. Uma história triste no entanto, já que grande parte das lutas perdeu-as e a sua vida como saqueador dos mares teve pouco êxito. Do que tinha em coragem, pouca, sobrava-lhe em persuasão. Fizera o bar, já que todos os seus conhecidos eram corsários velhacos, visualizou assim maneira de fazer fortuna sem correr tantos riscos. Depois de se apanhar tanto, o que se deseja a certa altura, é descanso. Pagou para que os companheiros divulgassem o bar e prometeu-lhes uma parte nos lucros. Mas ele era tão velhaco que lhes dizia ter dividido as moedas aquando da entrada deles no bar, pelo que também lhes dizia, que gastavam lá todas as moedas ganhas sem nunca lhes ter dado nenhuma. Os companheiros nunca desconfiaram de nada já que todos os dias que por lá passavam gastavam tudo o que tinham e, no fim, já arrastando-se pelas ruas, caídos de bêbados, nunca se poderiam lembrar do que se passara antes. Por vezes, à conta de um olho negro e uns dentes partidos, podiam apenas imaginar como havia sido a noite anterior. 

Homem de negócios cheio de ideias e montes de crenças, Cara de Cepo embarcou num encantamento desde o momento que vira o cálice. Todas as peças do bar apareceram quase como por magia, digamos que por... persuasão... E por isso não tinha duas mesas, dois copos iguais. O cálice fora a única peça realmente comprada e colocada em local de destaque.

O cálice apercebeu-se desde o primeiro momento do destino que lhe estava a traçar o seu dono. Nada do que estava a acontecer-lhe era parte do destino original. O que diriam os seus pais daquilo? Ele, uma peça tão nobre, ali num bar de piratas? – Eles vão ver!... Eu?! A ser vendido dessa maneira e ainda por cima regateado?! Vão ver, vão ver!

Os primeiros piratas a entrar, olhavam para o centro do bar. Lá figurava o cálice. Embora comercialmente não tivesse grande valor, era o seu porte e anterior destino que lhe emprestava a cobiça com que todos o olhavam. – O rum sabe melhor quando bebido pelo cálice - diziam. Todas as noites apenas uma pessoa podia usufruir dele e era precisamente quem tivesse as bolsas mais recheadas. Os piratas chegavam lá a gabar-se dos seus feitos e aquele que mostrasse mais ouro ou prometesse sair de lá com os bolsos mais vazios, bebia do cálice, até ficar de bolsa mais leve. Logo passava a oportunidade a outro.

-E porque foste para uma loja em vez do altar do rei? – Perguntou-lhe uma vez um dos cálices esmaltados.
-Bah! Só porque falhou a mão ao meu criador. Nem se nota nada... – Era esta a grande vergonha e o que desviara o grande cálice do destino para ele fadado. Uma falha que apenas olhos treinados poderiam observar e que certamente naquele bar ninguém notara. Uma bolha no topo do pé do cálice que transformara perfeição em defeito pois estava ligeiramente descentrada. Caso contrário, seria de valor incalculável.
Os copos tinham-lhe medo. Ouviam-no preferir palavras de maldizer e ficavam a imaginar o que seria que passava naquele cálice sedoso de vingança sem se atreverem a perguntar. 

- Afinal qual é o plano? - Este cálice esmaltado era novo naquelas paragens e bastante atrevido, provavelmente fruto da juventude.

Todos ouviam interessados e os que não conseguiam ouvir por estarem longe, esperavam ansiosos o passa palavra sobre o que era dito pelo cálice maldito.

- Sempre que bebem através de mim, libero na bebida parte da minha composição.
- Para quê? – Perguntava o copo imberbe.
- Assim eles ficam viciados em mim. Com certeza já reparaste como todos lutam por me ter nas mãos...
- É por isso?
- Certamente! E a minha imponência, claro!
- Claro... – O jovem quase ria com tanta prepotência. – Mas isso não é perigoso?
- Eles sobreviverão. É só até conseguir sair daqui. Tenho de fazer com que lutem por mim para que um deles me roube e me leve a outras paragens.
- E como sabe, se quem o levar não o vai vender?
- Assim espero! E se não o fizer, há-de ter uma morte terrível.
Um dos copos que se encontrava mais perto, conseguiu chegar-se ao jovem e subtilmente avisá-lo para não continuar a conversa. Puxou-o dali enquanto o cálice continuava a ladainha para consigo.

Nessa mesma noite, os ânimos estavam exaltados, mais do que o costume. Palavra puxa palavra, e porque dois piratas estavam empatados quanto à maquia conquistada nesse dia, não houve decisão clara quanto a quem usaria a relíquia em primeiro lugar. Ambos queriam ter as honras da noite e como nenhum cedeu... navalha puxa navalha.

No meio da confusão um espertalhão aproveitou o facto de todos terem o olhar fixo na luta. Agarrou o prémio e fugiu porta fora. Foi só numa das ruas mais adiante que o ladrão se apercebeu que estava a ser seguido. O medo de ser privado do recente tesouro levou-o a tentar esconder-se o mais depressa possível nos cantos da noite. A perseguição durou. Quem o seguia tinha a alcunha de Pirata Gagueiro devido à sua imperfeição de fala e não desistia nunca do que tinha em mente. Por vezes demorava-se nas sílabas, mas ninguém se atrevia a fazer pouco dele na sua presença, não depois do sangue corrido à sua conta. A fama de persistente acompanhava-o onde quer que fosse e estava claro que ia levar esta tarefa até ao final. Vira o ladrão pegar o cálice desejado no meio da confusão. Ele estava demasiado longe para executar a sua ideia com rapidez suficiente e fora ultrapassado pelo Pirata Fininho, assim chamado com justiça ao corpo delgado que o permitia esquivar-se dos outros durante as lutas e tirar o máximo proveito das situações.


 


Entraram nas mais escuras ruas da cidade, brincaram ao jogo do gato e do rato para no fim, o rato, ser inevitavelmente apanhado.

Ninguém sentiu a sua falta, embora o Cara de Cepo tivesse pena. Gostaria de ele próprio ter feito o serviço. Agora nunca iria descobrir quem tinha o precioso cálice. O bar iria perder clientela e teria de recomeçar tudo noutro porto. Estava arruinado.

A motivação de cada pirata para possuir aquele troféu estava relacionada directamente com as especificidades pessoais e o que objecto em questão podia fazer em cada caso. Quer fosse real ou apenas sugestão, o certo é que todos partilhavam a convicção dos poderes especiais que o cálice lhes transmitia. No caso do Pirata Gagueiro, após beber dali, este podia falar eloquentemente. O sonho de criança voltava após aquele milagre. Se falasse bem, podia mudar de profissão e dedicar-se à política. Estava na hora de criar o tão comentado entre os pares - “Partido dos Piratas”. Esperava-o uma vida fantástica, cheia de poder e dinheiro fácil. Os dias de frio e tempestades no mar com perigo para a sua vida terminaram. 

Começou por comprar roupas melhores, cortar o cabelo, procurar as pessoas certas para o ensinar as coisas da política... Ah! E tomar banho!

(Continuação na próxima semana)
Parte 2/7 AQUI

domingo, 28 de novembro de 2010

O brilho dos teus olhos, lembras?


 


Lembras-te de quando eras criança e tudo te sabia maravilhosamente bem?
E as cores eram vivas? As brincadeiras eram a vida?
E a vida sabia bem!
Tinhas esperança e confiavas em tudo o que fazias. Acreditavas em ti.

O que mudou?
Cresceste. Foi o que aconteceu.
Se mudarmos como vemos o mundo, ele muda. Quando começaste a ver o mundo como teu inimigo?

Faz a seguinte pergunta: Fui eu que desejei crescer ou foi o mundo que o exigiu?
E depois sê sincer@, muito sincer@ contigo e responde mais uma vez: Foi mesmo preciso?
Foi precisa a mutilação?

A relva continua a ser cortada e o cheiro a fresco, a cheirar a fresco. O chocolate continua a saber a chocolate e os espinafres, a espinafres.
Por que comes agora as verduras que antes rejeitavas? Por que comes agora chocolate?
E por que te sabe melhor ouvir as músicas da tua infância e juventude?
Os desenhos animados que vias e agora revês com os teus filhos, lembram-te de como eras? Fazem os teus olhos brilhar? Fazem-te sonhar?


Relembra-te.

Vai ao espelho depressa e vê-te. Abre bem os olhos e procura. Ainda estás aí, algures. Entra nos teus olhos, nos teus sonhos, na tua luz.

Não os abandones.
Não te percas, redescobre-te. 


SEI QUE CONTINUAS AÍ.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A Seeker




Acabou a música

Aplausos, pessoas levantadas, movimento uniforme.

A plateia vibra.

A agradecer, o ratinho cantor de ópera, eu.

Agradeço...


A partida, porta enorme a abrir, subida para a cadeira de descaracterização. Tiro os bigodes de ratinho. Limpo a minha cara. De súbito tudo diminui de tamanho. Agora vejo-me na minha realidade.

Abro a porta para o elefante que sou. Fecho a porta para o ratinho que sou no palco.

A mesma visão continua... tenho os mesmos pequeninos olhos de rato. A pele, essa, escureceu para um cinzento mais escuro.

A procura do mim que se esconde em cada desafio, em cada palco...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ser poeta



Ser poeta é sentir-se.
Sentir o Mundo.

Sentir.


Ser poeta é Amar o que se faz.

Por vezes até Amar o próprio amor, quem sabe?

Pode também ser odiar, mas Odiar de verdade...

...ou fingir que se odeia.



E sobretudo brincar, e gostar de brincar como

Comer chocolate, ou saborear um castanho chocolate!

Ou um azul que é do mar ou de uns olhos...



Ver gatos a sorrir e sorrir-lhes.

Fazer as pedras chorarem.

Dizer que “se as pedras tivessem alma seriam seres vivos.”

Gostar das pedras como são.



Dizer e contradizer, dizer coisa alguma...

Exclamar, interrogar, afirmar pintando, escrevendo... Amando.

Tentar fazer a verdade aparecer ou

Um seis, num jogo de dados.

Enfim, embebedar-se no êxtase do mais profundo Amor:

A Criação.



90.10.02

domingo, 7 de novembro de 2010

Re-Nascer




Eu sou a Alma que urge em nascer. Está quase, mas não foi suficiente o susto.
Falta a força para querer viver. Como se consegue isso?

Estou aborrecida.

Mais uma semana que passo no meu berço-pré-maternal. Ainda não encontrei o buraco de parir.
Quero, ao nascer, que o dia seja o mais belo e magnífico de todos. Vai chamar-se "O Dia em que o Amor Renasceu". Como a ave, eu me nomearei Phoenix.

Sou a criança chorante do mundo sonhado, não nascido, não berrado. Sou a criança que ainda não nasceu, quando será o dia?

Reconhecer-me-ei?

Tenho medo. Em todo o caso, quem não terá?

Estou esperando impacientemente, em êxtase.